3 de ago de 2018

A raiz autoritária do brasileiro


Vivemos tempos sombrios em que a defesa de regimes a práticas autoritárias se transformaram em senso comum pelos facebooks e grupos de whatsapp por aí. Cada vez mais temos visto a ascensão destes discursos no país, e em época de eleições isto se torna cada vez mais comum (e preocupante). Basta olharmos para as pesquisas eleitorais e percebermos que um dos principais candidatos a presidência do país defende torturador do regime militar e lança pérolas como "o erro da ditadura foi ter torturado e não matado". Na educação, a escalada das escolas militares demonstra a incapacidade de lidar com a juventude e a crença de que os problemas da escola só se resolvem com a polícia. No campo religioso, temos visto a tentativa por parte de determinados segmentos cristãos de pautar as políticas públicas em nome da fé, legislando a partir do que eles (e SÓ eles) consideram como a palavra de seu deus. 

Tudo isto compõe o quadro social que vivemos atualmente, e tem suas raízes na própria história de nosso país. O Brasil foi forjado através de processos autoritários desde a chegada do colonizador. Basta olharmos um pouco para traz para percebermos o quanto nossa história está manchada com o sangue de indígenas e escravos que não se submeteram ao jugo do colonizador. Este buscava implantar seu império a partir da destruição dos Outros, de suas culturas e valores. Para isto, a desumanização tinha que ser total e completa, e durante mais de 200 anos este projeto logrou êxito em toda a América. A partir dos discursos religioso, científico e histórico, os povos americanos e africanos foram considerados seres sem alma, não criados pelo deus cristão, inferiores biologicamente e inaptos para a civilização. Daí a missão do homem branco europeu em levar a civilização a estes povos, mesmo que fosse na ponta da espada. A missão civilizatória foi a ideologia que sustentou a colonização e relegou estes povos a regimes escravocratas cruéis e sanguinários.  

A autoridade do colonizador, portanto, se fundava em seu discurso religioso, por ser o escolhido por deus para levar a palavra de deus aos outros povos; no discurso científico, por ser ele a raça mais evoluída e superior biologicamente; e no discurso histórico, por ter sido capaz de construir o ápice da civilização ao longo dos séculos, enquanto os outros continuaram vivendo como seres bárbaros, primitivos e, portanto, inferiores. A estes outros, restava a resistência ao modelo autoritário do colonizador que procurava aniquilar seus valores culturais e religiosos. A própria formação das religiões afro-brasileiras em nosso país, como a Umbanda e o Candomblé, são frutos desta resistência, e tiveram que lidar com a perseguição e a tentativa de destruição por parte da sociedade em geral e das religiões majoritárias em particular. 

Durante o período colonial uma figura se tornaria famosa historicamente, e símbolo do autoritarismo deste período: os coronéis. A figura do coronel, o dono da fazenda que administrava com mãos de ferro, punindo com violência aos que não obedeciam, resume bem a raiz do autoritarismo brasileiro. Devemos lembrar que esta figura ainda está viva no imaginário de nosso povo, basta olharmos para determinadas figuras públicas que se comportam exatamente como coronéis tentando fazer valer sua vontade. A figura do coronel une em si mesma os ideais de uma sociedade autoritária: o machismo da supremacia masculina; uma fé religiosa fundamentalista que camufla seus preconceitos como defesa de dogmas cristãos; a ortodoxia política que busca fazer da política um meio para enriquecimento e favorecimento das elites; e o principal: a violência em todos os sentidos, na intolerância aos que pensam diferente, na tentativa de fazer valer sua vontade e principalmente na repressão e aniquilação dos outros, dos diferentes e que não condizem com seu ideal. 

Ao longo do século XX tivemos inúmeros coronéis na política brasileira. De Getúlio Vargas aos militares da ditadura, vários foram os nomes que ajudaram a perpetuar a figura do governo "mão de ferro", que usa de seu autoritarismo para fazer valer sua vontade e aniquilar a vontade (quando não a pessoa) do outro. O regime militar brasileiro foi o ápice deste autoritarismo. A perseguição aos "inimigos do regime", àqueles que o denunciavam e se colocavam como contrários a ele, o uso da violência extrema, da tortura e morte contra seus adversários, demonstram bem a face mais cruel do autoritarismo: o fascismo. Tudo isto está em nossa memória recente, e basta pegar um bom manual de história para ter acesso aos dados e aos fatos do período. 

Como se vê, a história brasileira é forjada a partir deste viés autoritário. A intolerância aos que pensam diferente e a violência simbólica, sistêmica, discursiva, em todos os seus aspectos, está na raiz do brasileiro. Não nos admira, portanto, que no século XXI discursos cada vez mais autoritários, que usam do ódio e da violência contra os que pensam diferente se elevem acima das vozes democráticas. Candidatos como Bolsonaro na esfera federal e Caiado na estadual (em Goiás) e seus crescimentos nas pesquisas tem demonstrado como o brasileiro tem cada vez mais aceitado um discurso radical e violento, que em nome da defesa de "valores cristãos e da família", se apoia num discurso de ódio contra minorias, negros, mulheres, homossexuais entre outros. 

A religião é um dos grande suportes dos discursos de ódio e autoritários que temos visto. O fundamentalismo religioso cristão, que diz se apoiar nas verdades incontestáveis da bíblia, utiliza o discurso religioso para destilar seu ódio contra os valores que considera não condizentes com sua fé. Os dois grandes alvos de seu discurso se concentram no combate aos homossexuais e ao feminismo, em defesa de um modelo de "família tradicional", composto apenas por um pai, mãe e filhos. Os movimentos LGBT e feministas, que abrem espaço para outros arranjos familiares (que aliás já existem aos montes na realidade) são alvos contantes do ódio autoritário dos fundamentalistas, que tentam por meio de leis (através da bancada evangélica) barrar sua luta e suas conquistas. 

A não aceitação do outro e de seu modo de vida está na raiz da religião cristã desde sempre. Durante a Idade Média eram perseguidos, julgados e mortos aqueles que adotavam padrões de vida desviantes do ponto de vista da crença, como hereges e bruxas, considerados como realizadores de pactos com o demônio. A religião cristã sempre teve dificuldades em lidar com o outro, em aceitar outros modos de vida e crenças, e isto se reflete na política hoje. Baseados em sua fé exclusivista (que atribui a si mesma a única via possível de salvação e não admite a possibilidade de outras religiões serem verdadeiras), a fé cristã busca aplicar seus dogmas e suas crenças a todos, de forma autoritária e violenta. O catolicismo tem se distanciado um pouco deste viés, especialmente a partir dos discursos mais progressistas do Papa Francisco, mas a mentalidade fundamentalista ainda permanece entre grande parte dos segmentos evangélicos. 

O sucesso destes discursos autoritários, que está presente na raiz da história brasileira nos faz questionar Sérgio Buarque de Holanda e sua tese do brasileiro cordial. O que temos visto é que o brasileiro cada vez mais se aproxima do autoritarismo e procura apoiar medidas radicais, que buscam sufocar as lutas das minorias e implantar a todos sua visão de mundo e de como ele deve ser, desde o âmbito religioso como sexual, comportamental, entre outros. Isto nos faz refletir sobre a fragilidade de nossa democracia e do perigo que corremos ao defender candidatos que usam deste discurso autoritário para calar as vozes contrárias a seus planos. Temos que combater estes discursos com a defesa aberta e sensata da democracia, único regime capaz de suportar visões contraditórias e conflitantes por meio do debate franco de ideias. O refúgio no autoritarismo se dá pela incapacidade em lidar com o diferente, com o pensamento divergente, e demonstra a imaturidade do brasileiro. Denunciar os discursos de ódio e o autoritarismo é o único caminho possível para a manutenção de nossa frágil democracia, e para que tenhamos alguma esperança de futuro. 

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