23 de jul de 2018

Não é só uma piada: o racismo nosso de cada dia

O período da Copa do Mundo trouxe muitas discussões à tona. Durante um mês inteiro pudemos debater sobre a decepção com os favoritos, sobre aulas de esquemas táticos, sobre polêmicas de arbitragem e especialmente o uso da tecnologia de vídeo para auxiliar os árbitros, entre outros. Mas não foi só o futebol que esteve na vitrine neste período. Outros assuntos sociais acabaram vindo à tona também durante este período, como por exemplo a questão dos filhos de imigrantes jogando nas seleções, especialmente na campeã seleção francesa, sobre as manifestações nacionalistas croatas, interpretadas por muitos como apoio ao regime nazista e sobre machismo e assédio às mulheres realizados na Rússia, especialmente com jornalistas que faziam seu trabalho. 

Mas um assunto chamou bastante atenção das redes sociais durante este período: o racismo existente no Brasil. Tal temática foi levantada após o yotuber Júlio Cocielo ter feito uma piada no twitter com a velocidade do jogador Mbappé, dizendo que ele poderia fazer uns "arrastões na praia". Após ganhar os holofotes, o caso acabou piorando bastante para o youtuber depois que vários usuários da rede social resgataram antigos tuítes dele em que ele era não só racista, como fazia piadas com estupro. O caso teve tanta repercussão que várias marcas que patrocinavam o rapaz acabaram cancelando seus contratos de patrocínio, e Cocielo apagou todos os mais de 30 mil tuítes que tinham em sua conta. 
Alguns dias depois, eis que surge um novo caso: desta vez outro youtuber, conhecido como Jacaré Banguelo fez uma piada com uma foto do filho do Will Smith, dizendo que havia visto ele pedindo dinheiro no semáforo mais cedo. Mais uma vez a repercussão foi imediata, com vários alertando-o sobre o teor racista da piada e outros mais exaltados já pedindo sua morte na fogueira. A reação do youtuber inicialmente foi de argumentar com os detratores que a piada não dizia respeito à cor de pele do rapaz, mas sim pelo modo como ele estava vestindo. Mesmo assim ele apaga o tuite e depois faz um vídeo em seu canal entrevistando um outro youtuber sobre o caso, Yuri Marçal, um humorista negro que faz bastantes piadas com temática racial em seus shows. No papo, em tom bem ameno, Yuri explica a ele sobre o porquê da piada poder ser considerada racista, mesmo que ele não tenha tido a intenção. 

Tais "piadas" são um exemplo clássico do imaginário racista que permeia nossa sociedade. Vivemos no Brasil em uma sociedade racializada, e isto pode ser explicado a partir da própria história de nossa formação populacional. A divisão da humanidade em raças remonta ao século XIX, quando naturalistas e cientistas buscavam explicar as diferenças físicas e sociais existentes entre as populações dos diferentes continentes. Para isto, um naturalista francês chamado Gobineau importou das ciências biológicas o conceito de raça, que era utilizado para diferencias espécies de plantas com características diferentes. No caso da espécie humana, ele a divide em cinco raças diferentes, a saber: o 1) homem selvagem, 2) o africano, 3) o americano, 4) o asiático e 5) o europeu.

O problema maior, no entanto, acaba nem sendo a divisão em raças por si só (embora isso já desse pano para a criação de uma divisão na espécie), mas sim no passo seguinte, que foi a hierarquização. Isto porque a cada uma destas raças foram atribuídas não só características físicas, como cor de pele, tipo de nariz e cabelo, mas também características psicológicas, como preguiçoso, incapaz, inventivo, e até características políticas, como tipo de governo de cada um deles, etc. Assim criou-se uma hierarquização entre as diferentes raças baseado no darwinismo social, doutrina que aplica o evolucionismo às sociedades, hierarquizando-as desde as mais "primitivas" até as mais "evoluídas". Claro que a última escala foi reservada à raça "africana", caracterizada por termos como "negro, indolente, incapaz, governado pelo capricho, etc.", enquanto que o europeu, colocado como último degrau da civilização era caracterizado como "inventivo, trabalhador, governado por leis, etc." 

Estava estabelecido assim um discurso que inferiorizava os povos negros africanos, colocados como último degrau da civilização, incapazes de produzir cultura, e que portanto justificava a escravidão e a colonização, consideradas como uma "missão civilizadora" do homem branco europeu. Uma das consequências destes estudos foi a craniometria, ciência que buscava analisar as diferenças entre as raças a partir dos estudos dos crânios. Logo ela se transformou em estudos que procuravam associar determinados tipos de crânios a tendências para o crime, por exemplo. Esta foi a teoria criada por um médico italiano, Césare Lombroso, que afirmava que podia "prever" se um determinado indivíduo teria tendências criminosas ou não a partir do estudo de seu crânio, ciência que ficou conhecida como lombrosianismo. Claro que os indivíduos colocados como possuidores de tais tendências eram apenas os de pele negra. 

No Brasil, estes discursos racialistas tiveram terreno fértil. No início do século XX os autores racialistas eram leitura assídua da maior parte dos intelectuais brasileiros, que utilizavam suas ideias para debater como resolver o problema do "atraso" da sociedade brasileira. O entendimento era que o nosso atraso era culpa do excesso de negros existentes em nossa sociedade, e consideravam duas soluções distintas: a primeira era a teoria do branqueamento, que acreditava que, como o sangue branco era considerado "superior", ele prevaleceria nas relações inter-raciais, fazendo com que, ao longo dos anos, as relações miscigenadas gerassem cada vez indivíduos mais brancos. A segunda teoria não compartilhava da teoria do branqueamento, considerando a miscigenação algo ruim para a sociedade, pois o ser "mestiço" era considerado mais inferior ainda que o negro (assim como a mula é resultado de um cruzamento entre espécies diferentes que gera indivíduos estéreis, daí o termo mulato). OS defensores desta segunda onda consideravam que a solução era trazer mais indivíduos brancos para a sociedade brasileira, por isso defendiam o imigrantismo, especialmente de europeus para aumentar o coeficiente de indivíduos de "raças superiores" ao país e minimizar a influência negra. 

Estas discussões não estão distantes de nós. Até a década de 1950 ainda era comum encontrarmos intelectuais debatendo tais temas a sério na sociedade brasileira. Mesmo após cientistas comprovarem que o conceito de "raça" é inoperante biologicamente, a hierarquização social já havia sido instituída na sociedade brasileira. No período pós-abolição é negado às populações negras o acesso aos mesmos direitos que os brancos, especialmente no âmbito educacional. O negro continuava sendo visto como inferior e, por conta da herança racista que cada vez mais se institucionalizava na sociedade brasileira, é cada vez mais empurrado para ocupar as camadas mais baixas da sociedade, do ponto de vista econômico e social. Os morros e favelas cariocas, os presídios e bairros periféricos comprovam que a maior parte de sua composição é de pessoas negras. Da mesma forma, as estatísticas educacionais e trabalhistas são alarmantes, e demonstram o quanto grande parte das populações negras se encontram marginalizadas e distantes de terem acesso aos mesmos direitos dos brancos. 

Todo este histórico recente é o que produziu o imaginário racial brasileiro. E é o que permite a existência das ditas piadas que procuram associar o negro sempre às mesmas ocupações e postos de trabalho, quando não à situações de marginalidade. O que as duas piadas tem em comum é isso: a recorrência a um estereótipo que reforça uma situação de inferioridade, seja social, seja econômica, das populações negras. No primeiro caso, Cocielo se referiu à velocidade de Mbappé afirmando que ela seria útil para fazer "arrastões" (assaltos)  na praia. Tal associação reforça a imagem de que o lugar "natural" de todo negro é como bandido. Pode-se dizer: "ah, mas isso é o que as estatísticas dizem". O problema é que aqui pega-se uma situação de marginalidade social que coloca grande parte dos negros no caminho do crime, e joga-se para o aspecto "racial", como se isto fosse algo natural das pessoas negras. O racismo é exatamente isso: quando você atribui determinadas características, sejam econômicas, sociais ou políticas, a elementos físicos, como a cor de pele. E é exatamente isso que está implícito no tuíte de Júlio Cocielo: o de que todo negro é bandido e que esta é sua única ocupação. 

No caso da piada do Jacaré, a lógica é a mesma: associa-se que, por ser um jovem negro vestido de maneira duvidosa, sua "posição" natural seja uma posição marginalizada socialmente, neste caso, não um bandido, mas um pedinte ou mendigo. Mesmo que o próprio youtuber afirme posteriormente que a origem da piada não foi pela cor de pele do rapaz, mas sim pelas roupas que ele vestia, e que quis ironizar que um jovem milionário como ele se vista tão mal, no fundo a questão racial está evidente. Para visualizar a questão racial e o racismo presente nas duas piadas, basta fazermos um exercício simples: se os rapazes alvo das piadas fossem brancos, um jogador branco que é veloz e um jovem branco mal vestido, as comparações seriam as mesmas? Obviamente não, os termos das comparações seriam outros, com outros personagens sociais. Provavelmente o jogador branco veloz seria comparado com alguém do atletismo, e o jovem branco mal vestido com um palhaço ou algo do tipo. Isso evidencia o quanto a questão racial está presente e pesa nestes casos. 

Este é um dos principais efeitos do racismo: o de atribuir aos negros determinadas posições sociais, sempre marginalizadas. Podemos perceber isto na própria mídia: ao longo dos últimos anos, vários atores negros já vieram a público para criticar o fato de sempre ocuparem os mesmos papéis em novelas e filmes: sempre de posições subalternas socialmente, como porteiros ou bandidos para os homens, e domésticas ou prostitutas para as mulheres. Mais uma vez, deve-se entender que o problema não é caracterizar o negro destas formas em determinadas situações que, realmente, acontecem na realidade infelizmente. O problema é SÓ retratar o negro desta forma, e não permitir que outras formas de caracterização dos negros sejam feitas, como o negro de classe média ou de elite, o negro empresário, e outras situações que também acontecem na vida real. Se ambos acontecem, porque então se privilegia apenas o negro como marginalizado? Isto cria um círculo vicioso em que, alegando que se quer apenas representar a realidade, acaba-se privilegiando apenas um lado desta realidade, e justamente aquele que reforça todos os estereótipos já associados aos negros ao longo de séculos e séculos de racismo. 

Buscar novas formas de se representar as populações negras é algo essencial no combate ao racismo, a começar pelas piadas. Acostumamo-nos a sempre fazer piadas depreciando as populações negras, atribuindo características negativas por conta da cor de sua pele. É hora de começarmos a rever tais situações, e a julgar pela repercussão gerada no caso destes dois youtubers, parece que estamos no caminho certo. 

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