5 de jul de 2018

O Círculo do Espetáculo: os limites da exposição nas redes sociais

O uso das redes sociais é uma constante em nossa vida, e tem influências diversas na sociedade atual. Refletir sobre o uso das redes se torna essencial para compreendermos não só como utilizá-las melhor e quais seus limites, mas até que ponto podemos ter nossos dados comprometidos ao nos expormos em demasia. Este é justamente o tema do filme O Círculo, lançado em 2017, e que procura abordar até que ponto nossa exposição nas redes sociais é positiva e que tipo de novas relações interpessoais estão nascendo de seu uso, tal qual preconizara o teórico francês Guy Debord na obra A Sociedade do Espetáculo, lançada em 1967, a respeito dos meios de comunicação em massa e sua relação com o capitalismo. 


O filme se passa em torno de uma empresa que leva o nome do filme, uma espécie de combinação da Apple com o Facebook. A principal aposta da empresa é sua rede social, a True You, uma combinação de Twitter, Facebook, Youtube e Snapchat, que permite aos seus usuários se conectarem uns com os outros por meio de seguidores e compartilharem pensamentos, reflexões e seu dia-a-dia por meio de textos, imagens, fotos e principalmente vídeos. Para incrementar esta ferramenta, a empresa lança um novo modelo de microcâmera: portátil, sem fios e que pode ser acoplada em qualquer lugar, inclusive lugares escondidos. A câmera pode ser usada para tanto monitorar lugares diversos quanto para mostrar o cotidiano das pessoas. Mae Holland (Emma Watson), a protagonista do filme, se vê diante destes avanços tecnológicos quando sua amiga Annie (Karen Gillan) lhe arranja um emprego nesta empresa, e ela se vê diante do desafio de se integrar a este novo mundo virtual. 

Aos poucos, Mae, que antes poderia ser definida como uma pessoa introspectiva, é levada cada vez mais a se aventurar neste mundo virtual, em que tudo pouco a pouco passa a estar conectado. Este é o grande mote do filme: propor uma sociedade completamente integrada através de um sistema único, que vai desde coisas simples como compartilhar fotos e videos até coisas mais sérias, como pagar impostos, renovar sua carteira de motorista ou até mesmo votar nas eleições. A proposta da empresa é que tudo fosse feito por meio de seus sistemas, o que levaria a um estado de controle total sobre a população. Todo este projeto é mantido sob um discurso de que "ninguém deve guardar segredos" e "nem deve ter nada a esconder". Para exemplificar suas propostas, a empresa consegue fazer com que um político seja o primeiro a compartilhar toda a sua vida com as redes sociais, desde telefonemas, encontros e conversas, até sua própria conta bancária, tudo disponível online 24 horas para as pessoas acompanharem, encarnando assim o princípio de que "não possui nada a esconder". 

Aos poucos porém Mae vai descobrindo os infortúnios que um tal nível de exposição pode causar em sua vida, desde a falta de privacidade até crises de relacionamento com quem não deseja ter sua vida completamente exposta desta forma. O grande contraponto neste sentido se dá com seu amigo Mercer (Ellar Coltrane), um sujeito introspectivo que resiste até o fim contra esta exposição total de sua vida. Através de sua resistência, Mercer é aquele que tenta chamar Mae de volta ao mundo real, e demonstrar os infortúnios que a exposição desenfreada da vida nas redes sociais pode provocar. No entanto, esta resistência não é vista com bons olhos pela sociedade do Círculo, que busca inúmeros meios de forçar a integração de todos. A ideia por trás do filme, baseado no romance de mesmo nome escrito por Dave Eggers, parte de uma agudização do uso de redes sociais em nossa sociedade atual. Como toda distopia, ela procura evidenciar e exagerar certas características de nossa sociedade para demonstrar seus problemas. Neste caso, as críticas se concentram em torno de dois eixos principais: a espetacularização da vida cotidiana e a busca de um sistema de controle da sociedade. 

Em 1967 o francês Guy Debord lançava a obra "A Sociedade do Espetáculo". De formação marxista, Debord procurava fazer uma análise da sociedade atual a partir dos meios de comunicação de massa, mais especificamente a TV e o rádio, e de como eles seriam uma atualização da alienação do trabalhador proporcionada pelo capitalismo. O espetáculo, concebido por ele como "a vida aparente" que nos é transmitida todos os dias pela TV, seria uma forma de manter no trabalhador uma falsa sensação de estar integrado à sociedade de consumo, mesmo que ele não tenha acesso aos mesmos bens de consumo das elites. Assim, a grande definição do espetáculo se daria em torno não do que a vida é, mas sim do que ela aparenta ser. A aparência é, assim, o principal definidor da vida como espetáculo: 

O conceito de espetáculo unifica e explica uma grande diversidade de fenômenos aparentes. As suas diversidades e contrastes são as aparências organizadas socialmente, que devem, elas próprias, serem reconhecidas na sua verdade geral. Considerado segundo os seus próprios termos, o espetáculo é a afirmação da aparência e a afirmação de toda a vida humana, socialmente falando, como simples aparência. Mas a crítica que atinge a verdade do espetáculo descobre-o como a negação visível da vida; uma negação da vida que se tornou visível (DEBORD, Guy. A Sociedade do Espetáculo. eBookBrasil.com, 2003, p. 16). 

Esta aparência teria por objetivo manter o trabalhador integrado ao sistema capitalista, não pelo acesso aos bens que produz, mas sim pela aspiração constante a estes bens. Os meios de comunicação de massa - sejam eles a TV, principal mídia da época de Debord ou podemos atualizar a crítica também para a internet por meio das redes sociais - forneceriam a este trabalhador modelos de vida felizes e saudáveis, nos quais os representantes das elites desfrutam dos bens e produtos que só eles tem acesso, e que são impostos aos trabalhadores como necessidades a serem atingidas. O trabalhador, desta forma, passaria a viver não a sua própria vida, mas um simulacro da vida que ele vê na tela. A contemplação da vida dos outros substituiria assim as suas próprias experiências: 

A alienação do espectador em proveito do objeto contemplado (que é o resultado da sua própria atividade inconsciente) exprime-se assim: quanto mais ele contempla, menos vive; quanto mais aceita reconhecer-se nas imagens dominantes da necessidade, menos ele compreende a sua própria existência e o seu próprio desejo. A exterioridade do espetáculo em relação ao homem que age aparece nisto, os seus próprios gestos já não são seus, mas de um outro que lhos apresenta. Eis porque o espectador não se sente em casa em parte alguma, porque o espetáculo está em toda parte (DEBORD, Guy. A Sociedade do Espetáculo. eBookBrasil.com, 2003, p. 26)

Apesar do filme em questão não se aprofundar tanto nestas questões, podemos percebê-las em suas entrelinhas. Em um determinado momento do filme, Mae é convidada a expor sua vida nas redes sociais do Círculo 24 horas por dia, através da utilização de uma câmera portátil acoplada em sua roupa. Desta forma ela é acompanhada por milhares de seguidores constantemente, que passam a "viver" a vida dela através das redes, conforme asseverava Debord. Este pode ser considerado um retrato exagerado e caricatural de nossa sociedade atual, mas ainda assim vale a pena a reflexão a respeito de até que ponto nossa exposição nas redes sociais é algo saudável. Se antes apenas a TV guardava o monopólio da produção e veiculação de conteúdos, em uma via de mão única, agora temos uma via de mão dupla por meio da internet, em que aqueles que tem acesso podem também produzir e veicular conteúdos que serão consumidos pela sociedade em geral. A grande questão é que tais conteúdos podem ir desde coisas construtivas, reflexões, críticas e que contribuam para aprendizado e formação, até coisas fúteis como compartilhar nossas vidas e nosso cotidiano, que até certo ponto também são importantes meios de socialização, mas que em demasia podem ser prejudiciais, como o filme demonstra.  

Sobre este último ponto, o que temos visto ultimamente é que cada vez nossa sociedade anseia por consumir estas futilidades. O "saber da vida alheia" talvez seja algo intrínseco à natureza humana, e sempre se deu no âmbito das micro-relações (familiares, parentais, de amizade). Sempre procuramos "saber" da vida dos outros. Agora, este saber alcança outros níveis com os meios de comunicação de massa, em que procuramos consumir a vida de outras pessoas, personalidades, estrelas da TV, do esporte, do cinema, etc. Isto cria um círculo vicioso em que temos tanto pessoas interessadas em consumir estas vidas, quanto pessoas dispostas a compartilhar as suas vidas para serem consumidas, haja vista os Big Brothers e outros reality shows da vida. 

O segundo aspecto desta discussão em torno da espetacularização é a relação entre as redes sociais e questões políticas e econômicas. Isto é abordado no filme a partir dos personagens de Tom Hanks, Eamon Bayley, o presidente da companhia O Círculo, uma espécie de Steve Jobs; e John Boyega, que encarna Ty, o gênio que criou o sistema TrueYou. O antagonismo entre os dois personagens se dá no sentido em que Ty não concorda com o que Bayley teria feito a partir da sua criação, e procura investigar o que está por trás de toda a aparência construída por Bayley e seu acessor Tom Stenton (Patton Oswalt). A necessidade de controle da sociedade e os altos ganhos financeiros são alguns dos aspectos que questionam a idoneidade dos seus líderes. Pra começar, o próprio fato deles tanto falarem em transparência mas serem os primeiros a terem coisas a esconder já servem de mote para  a desconfiança de Ty, seguido depois pela própria Mae. 

Em um determinado ponto do filme, eles propõem que a sua rede social integre e substitua os sistemas oficiais do país, como o da receita federal e tribunal eleitoral por exemplo, levando os cidadãos a poderem pagar seus impostos e votar por meio dele. Sob uma falsa aparência de comodidade, o que se esconde por trás desta medida é o controle total da população e cada vez mais acesso aos dados de seus usuários. Quando falamos em controle midiático da população não podemos nos esquecer do famoso livro de George Orwell, 1984, em que um estado autoritário utiliza de câmeras integradas às TVs para vigiar constantemente seus cidadãos e descobrir comportamentos estranhos que possam denunciar qualquer discordância com o Estado. Mas não podemos deixar de lembrar também de nossa própria realidade, principalmente depois dos escândalos de exposição de dados envolvendo o Facebook, que poderiam ter sido utilizados para influenciar na eleição norte-americana em 2016. 

O uso de informações de usuários para traçar perfis é um dos grandes trunfos que as redes sociais permitem às empresas. E elas podem ser usadas desde para traçar estratégias de marketing mais precisas, até influenciar resultados de eleições, por exemplo. No Brasil este ano já existem algumas empresas de olho neste potencial e prometendo oferecer aos candidatos seus serviços: mapeamento de possíveis eleitores e das melhores formas de se chegar até eles, por meio da análise de dados em redes sociais, que os levaria a traçar os perfis mais indicados e suscetíveis a apoiar este ou aquele candidato. No fim das contas, podemos perceber toda a potencialidade das redes sociais e de seu uso em nossa sociedade. Mas não podemos deixar de fazer as devidas críticas ao modo como muitas vezes elas são utilizadas, nem deixar de perceber e criticar seus usos pelas grandes corporações como um meio de controle de massa na sociedade atual. Discutir até que ponto a internet e as redes sociais são formas de se democratizar ou alienar os cidadãos é bastante profícuo e necessário, e filmes como este O Círculo podem demonstrar bem os limites e perigos da espetaculização proporcionada pelas redes sociais. 

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