2 de jun de 2018

Heavens Guardian e a festa do Metal Goiano

Foi em meados de 1998 que tive a oportunidade de assistir meu primeiro show de Metal em Goiânia. Lembro que há pouco tempo havia conhecido o estilo, através de fitas cassetes piratas do Metallica e Iron Maiden, ouvidas à exaustão naqueles walkmans coloridos vendidos pelos camelódromos da vida. Naquela época eu e alguns amigos havíamos ouvido falar de shows do estilo que aconteciam na sede estudantil do Diretório Central dos Estudantes (D.C.E.) da UFG, localizado na Praça Universitária, com bandas locais de heavy metal e resolvemos conferir um destes shows. Entre as bandas havia uma que se destacava e da qual já ouvíamos falar há algum tempo: uma tal de Heavens Guardian. No primeiro show a impressão não foi das melhores: local tosco e som ruim. Com o tempo nos acostumamaríamos, e até veríamos shows melhores. Mas de fato a banda que fechava o evento merecia a fama até ali adquirida: a Heavens Guardian realmente tinha algo de diferente. Seria o início de uma longa carreira (pra eles e pra nós, como headbangers). 


Foram muitos e muitos shows e eventos como aquele, em vários locais diferentes. O DCE da UFG era o mais comum, mas havia também o DCE da UCG, o Martim Cererê e dezenas de pubs e bares, como Maqna Rock, Garage Café, Café Acústico, Bedrocks, Trem Bão, etc. As bandas eram inúmeras e todo final de semana tínhamos a oportunidade de rever os mesmos amigos e conhecer outros nestes vários "festivais" (alguns com uma quantidade improvável de bandas por noite). Além da Heavens Guardian, podíamos contemplar nomes como Spiritual Carnage, Ressonância Mórfica, Velvet Vex, Necropsy, Sunroad, Tsavo, Rhevange, Magnificência entre inúmeras outras, todas com sons autorais nas mais diversas vertentes do Metal. Podemos dizer que o final da década de 1990 e início dos anos 2000 foram os tempos áureos do heavy metal em Goiânia. 

Algumas destas bandas conseguiram colher bons frutos e se destacar na cena. Talvez a melhor sucedida neste quesito tenha sido realmente a Heavens Guardian. Em 1999 a banda lança seu primeiro EP com quatro músicas. Lembro que eram apenas umas 500 cópias, e cada um de nós que acompanhamos a banda em seu início brigávamos para conseguir uma cópia da mesma. O nome do disco era Roll of Thunder, e contava com uma introdução e três músicas. A gravação não era das melhores e o som soava ainda um tanto imaturo, mas já mostrava o grande potencial da banda. Com belos riffs, um vocal agudo e ótimas composições, a Heavens Guardian apresentava uma mistura de  power metal com metal melódico de muita qualidade. Este EP abriu caminho para que a banda tivesse a oportunidade de assinar com uma gravadora e gravasse seu primeiro disco. Assim surge em 2001 o álbum Strava, lançado pela Megahard Records. Aqui a banda demonstrava uma grande evolução musical: riffs mais cortantes, refrões melódicos e um vocal mais maduro. Em 2004 repetiriam a dose com o álbum D.O.L.L., se firmando então como uma das grandes bandas de power metal do cenário nacional. 

Com o declínio do estilo no entanto, tanto em Goiás quanto no Brasil, as bandas do estilo sofreram um duro golpe. Várias encerraram suas atividades, os shows de metal deram lugar aos grandes eventos de Rock Alternativo e outros estilos. A própria Heavens Guardian viveu um período de ostracismo. Seu vocalista, Carlos Zema, acabou se mudando para os Estados Unidos e se integrando a outros projetos solo, como a banda Immortal Guardian. Em 2016 os guitarristas Luís Maurício e Erikson Marin, únicos membros restantes da formação original resolveram reformular o projeto. Para o vocal, fizeram uma aposta diferente: chamaram Flávio Mendez, antigo vocalista da Velvet Vex, e a vocalista Olívia Bayer, atuante no cenário rock e jazz da capital. A banda ressurge então com uma nova proposta: a divisão dos vocais masculino e feminino, seguindo o modelo de outras bandas do estilo. Completavam a banda Murilo Ramos no baixo, ex-Necropsy, e Arthur Albuquerque na batera. Desta formação surge o disco Signs, que procura seguir o mesmo padrão do power metal, agora com a nova proposta vocal. 

Neste ano de 2018 a banda resolveu retomar os palcos com um projeto grandioso. Comemorando os 20 anos de carreira, a Heavens Guardian realizou no dia 01 de junho um show com a Orquestra Sinfônica Jovem de Goiás, primeiro show do gênero realizado por uma banda de metal no Brasil Seguindo o caminho de grandes bandas internacionais, como o Metallica e o Scorpions, a banda pôde revisitar sua carreira com novos arranjos e roupagem, além de inúmeros convidados especiais. O primeiro destaque é o retorno do vocalista original Carlos Zema, que pôde interpretar os clássicos da banda ao lado de Olívia Bayer; na bateria, Ricardo Confessori (ex-Angra e Shaman); ainda contamos com as participações em algumas faixas de Eduardo Ardanuy (ex-Doctor Sin), Alírio Neto (Khalice) e Marcelo Pompeu (Korzus), numa grande festa para celebrar o metal goiano. 


A banda passeou por todos os seus discos, dando destaque para o mais recente, Signs, nas quais se destacaram a voz de Olívia, que pôde demonstrar uma qualidade vocal impecável. Nas músicas "das antigas", destaque para Fighters e Freedom, do disco Strava, Screams of 1964 e Holy Sky do D.O.L.L, e o ponto alto do show com a música Neverland, do EP Roll of Thunder. Além das composições próprias a banda aproveitou a presença da orquestra para mandar as covers de The Show Must Go On, do Queen, e Simply the Best, de Tina Turner, que ficaram belíssimas com a orquestra. Outro destaque foram os solos de Ardanuy, talvez um dos melhores guitarristas do país. A banda informou ainda que deste show seria lançado um DVD ao vivo com a Orquestra, projeto que deve recolocar a banda no eixo dos grandes nomes do heavy metal nacional. 

Foi uma noite para celebrar não só a Heavens Guardian, mas toda uma geração de jovens que cresceram ouvindo e indo aos shows desta e de outras inúmeras bandas na capital goiana. Rever os amigos, colocar a conversa em dia e apreciar o melhor do metal goianiense. Que venha o DVD e muitos outros projetos para a banda, uma das poucas que ousa perseverar mesmo com as adversidades inerentes ao mercado musical. Nós metaleiros agradecemos! 

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