14 de mai de 2018

Salah, o Africano


 Neste ano, entre os destaques futebolísticos, tivemos pela primeira vez a ascensão de um jogador egípcio. Mohamed Salah, jogador egípcio de 25 anos do Liverpool marcou 45 gols na temporada, sendo 32 deles só na Premier League (Campeonato Inglês), o que o levou a bater o recorde de gols em uma única temporada do campeonato, anteriormente pertencente a Luis Suárez, Alan Shearer e Cristiano Ronaldo. Por conta disto, Salah foi eleito o melhor jogador africano desta temporada pela Confederação da África (CAF). No entanto, ao divulgar a notícia, alguns sites de notícia se depararam com um estranho fenômeno: muitos comentavam dizendo que se tratava de um erro, que Salah não era africano, mas sim Egípcio. 








Muitos questionaram estes comentários, e obtiveram a resposta de que os comentários estão certos quanto ao Egito não pertencer à África por que o "Egito na verdade é um país transcontinental". De fato, o Egito fica localizado em sua maior parte na África, mas possui a península de Sinai, que fica localizada no continente asiático. Por isso é denominado como um país transcontinental. No entanto, tanto na geopolítica atual quanto historicamente, sempre foi reconhecido como um país pertencente ao continente africano. De onde vem, então, esta necessidade de desvincular o Egito do continente africano? Devemos recorrer à História para desmistificar de onde vem esta questão.  

O continente africano, ao longo da história, foi alvo da construção de uma imagem extremamente negativa desde a antiguidade, quando os gregos se referiam aos africanos como etíopes, que em grego significava "rosto queimado", devido à pele negra de seus habitantes. Durante a Idade Média, o debate maior era a respeito da procedência bíblica dos habitantes da África. No imaginário europeu, o mundo seria dividido em 3 continentes, cada um deles habitado pelos descendentes de Noé: Jafé (ancestral da raça branca), Sem (ancestral da raça amarela ) e Cam (ancestral da raça negra). Como se sabe, Cam teria sido amaldiçoado por seu pai, depois de flagrá-lo nu e embriagado. Sua maldição seria a de que ele e seus descendentes seriam condenados a servir a seus irmãos. Assim nascia o mito bíblico que justificaria a inferiorização dos negros africanos, e sua escravização.

A estes preconceitos anteriormente construídos, somam-se nos séculos XVIII e XIX ideias científicas e históricas. Um dos primeiros intelectuais a refletirem em seus escritos o passado do continente africano foi o filósofo alemão Friedrich Hegel. Em sua obra mais famosa, intitulada "A Filosofia da História", lançada pela primeira vez em 1837, o autor faz as seguintes considerações sobre a história do continente africano: 

Com isso, deixamos a África. Não vamos abordá-la posteriormente, pois ela não faz parte da história mundial; não tem nenhum movimento ou desenvolvimento para mostrar, e o que porventura tenha acontecido nela – melhor dizendo, no norte dela – pertence ao mundo asiático e ao europeu. [...] Na verdade, o que entendemos por África é algo fechado sem história, que ainda está envolto no espírito natural, e que deve ser apresentado aqui no limiar da história universal (HEGEL, G. W. F. Filosofia da História. Brasília: Editora UNB, 1999, p. 88). 


Neste trecho podemos ter contato com duas concepções sobre o continente africano que viriam a perdurar durante muitos anos no imaginário ocidental, influenciando inclusive o nosso atualmente. A primeira delas é o de que a África, especialmente a África subsaariana, é um continente sem história, perdido em um mundo de selvageria, barbárie e primitivismo. Esta visão, mesmo após a colonização europeia, é mantida viva hoje através das notícias recorrentemente veiculadas pela mídia de conflitos, guerras tribais e costumes exóticos que ainda hoje permanece em alguns países da região. 

A segunda concepção de Hegel é o de que o norte africano não faz parte da África. Ele deve ser inserido na história asiática ou europeia. Tal concepção em partes também é fruto do processo de islamização da região, que aproximou a maioria dos seus países da cultura árabe. Assim, coincidem aqui duas estereotipações históricas bastante comuns: primeiro a de que a África é o continente negro por excelência; e segundo que a cultura islâmica se reduz à península arábica e adjacências, localizadas todas no continente asiático. Assim, em nosso imaginário, logo fazemos a associação: África - povos negros / Ásia - povos islâmicos. No caso do Norte da África, em que temos a existência de países africanos islamizados, estes dois estereótipos são colocados em cheque. As populações dos países do norte da África como Tunísia, Argélia e o próprio Egito são associados muito mais à cultura árabe, portanto, vistos como asiáticos, do que propriamente africanos. 

Tudo isto serviu para alimentar, nos meios acadêmicos, um profundo desinteresse pela história do continente africano, e reproduzir ideias errôneas e imprecisas sobre este continente. Um exemplo é a própria forma como a História da Antiguidade é concebida. Nesta disciplina, estudamos as civilizações mediterrânicas, conhecidas como "Civilizações do Oriente Próximo", como Mesopotâmia, Fenícios, Persas e, claro, o Egito. Pouco se fala ou destaca-se o fato do Egito Antigo ficar localizado no continente africano. E este foi durante muito tempo, o único momento em que a África era incluída entre os estudos históricos. O restante da história africana ficava, como queria Hegel, relegada ao esquecimento. Somente recentemente temos nos voltado para o estudo deste continente nos meios ocidentais. No Brasil por exemplo, a história da África e dos negros no Brasil só foi incluída nos currículos a partir de 2003, com a aprovação da lei 10.639 que obriga todas as escolas do Brasil a inserirem estes conteúdos em suas aulas. Mesmo assim, o cumprimento da lei não é efetivo, e muitas escolas hoje não o fazem. 

Portanto, percebemos que há muito ainda por ser feito para desmistificar a história africana, e reconhecermos sua importância, especialmente num país de maioria negra como o Brasil. Enquanto isso, continuaremos vendo pessoas reproduzindo que o Egito de Salah não fica na África. 

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